13.4.05

Duas iguais (Cíntia Moscovich) é bom. Respeitei o elogio de Luiz Ruffato na quarta capa, mas não gostei da frase final - Ao final, cobre toda a paisagem a melancolia, ferrugem do tempo. - não depois que li o livro. Me despistou, pô. Achei que fossem se desgostando, e se afastando irremediavelmente e aos poucos... e não é nada disso. Aí, lá dentro, Moacir Scliar. Pessoalmente não gosto de elogios demais impressos no livro. Desconfio, como no carteado. Gosto de um resumo bem-escrito ou um trecho. Outra coisa que me dá urticária são aquelas faixas: O LIVRO QUE INSPIROU A MINISSÉRIE TAL. Eu sei, é necessário, mas dá uma gana de reduzir o troço a pó, num frenesi. Como, aliás, qualquer tipo de coisa cobrindo a capa de um livro. A capa falsa de Estorvo é um estorvo. Imagino se é intencional. Joguei fora, possessa, todas as capas falsas da coleção de livros dO Globo, especialmente pela feiúra das fotos; me guio pela lombada.
Não tem uma palavra fora do lugar em Duas iguais, embora às vezes fique Clarice Lispector demais pro meu gosto. A propósito, o que estraga a Clarice Lispector (mesmo caso do Fernando Pessoa) é o fato de ter 24641 pessoas na comunidade dela no Orkut. Milhares de pessoas apaixonadas por ela, baseando a busca da alma gêmea no critério "gostar de Clarice", e citando frases, e recorrendo aos livros como a Minutos de Sabedoria (prefiro quem consulta Minutos de Sabedoria mesmo), declarando em festas e coquetéis Ah, eu adoro a Clarice!. Acho que é por isso que estragaram a programação visual dos livros dela. Figurinhas desenhadas com lápis de cor. Que fo-fo. Clarice Lispector virou fo-fa. Passa a gilete.
Então, o livro tem imagens lindas. As feitas de letras. Achei a capa meio espalhafatosa. Bonita em alguns aspectos, mas, sei lá. Inventona demais.
Mas... o quê estou fazendo? Eu ia elogiar este livro. Calma, calma, estou chegando lá.
A parte do casamento de uma das iguais é fantástica, principalmente porque não tenta explicar demais. Achei o final muito Hollywood. Achei que devia se ter falado menos de Paris, porque deixa o leitor achando que só se quis mostrar que se conhecia a cidade. Isso fica pros guias de turismo. E devia ter se usado um pouco menos o verbo vergastar, não sei se estou sendo muito menina-de-20-e-poucos, mas ele chamava a minha atenção toda vez que aparecia. Ei, vergastar de novo! Mas o resto todo, a morte do pai, os desesperos, os romantismos, as doencinhas-cefaléias, até o vocabulário um pouco mais rebuscado, cabem direitinho em si próprios. E o todo da história ressoa na cabeça. Ribomba. É daqueles livros que os defeitos só enriquecem.
Além disso, com a leitura descobri palavra nova. Acompanhem:
Tem desafetos que até dão gosto: você o imagina em seu QG com um robe vermelho de seda e uma longa cigarrilha. Agora, tem um gênero que caramba. Como uma garota que tentou cuspir na minha cara na terceira série e tudo o que conseguiu foi sujar um pouco da própria e o chão do pátio, não sei se por falta de força ou de coragem, a tansa. "Tansa" é perfeito pra definir gente assim. Posso ter sido muita coisa ruim (naïve, ingênua, escrota, boba-alegre) mas nunca tansa. Vade retro.