16.1.06

Eu ganhei o Perdas e Ganhos da Lya Luft e pensei em ler. Nunca curti muito, tinha lido dela um livro esquecível que tinha gêmeos que só conseguiu me fazer valorizar ainda mais Clarice Lispector.
Comecei a ler com uma ótima disposição; depois da primeira página (eu resisti frente e verso) suspirei, fechei e fui trocar pelo quarto volume do Guia do Mochileiro das Galáxias e uma revista do Zé Carioca. Me senti no lucro.
O que estragou o Perdas e ganhos para mim foi o mesmo que pra mim arruinou o final do anime de Evangelion. Altas elucubrações sobre o que te faz feliz ou infeliz, amado ou não-amado, bem-vivente ou mal-vivente; pega um fato de uma pesquisa científica que saiu no jornal, junta com um lugar-comum, sai uma fornada de truísmos inquebrantáveis e chatos. É chato de matar. É auto-ajuda. E eu tenho mil restrições contra a auto-ajuda. Ironicamente, para explicar isso, soarei um pouco auto-ajuda.
Se você lê um livro decente, você consegue entrar no fluxo de outra pessoa e sai limpo, renovado, você mesmo - mesmo que os problemas da outra pessoa não tenham nada a ver com os seus. (Nisso Clarice Lispector é mestra, aliás.) A questão é que a auto-ajuda é egoísta, ou "universalmente egoísta": ela é feita para que cada pessoa que abra aquele livro sinta que o texto se aplica diretamente a ela, e é esta lisonja que fará o livro ser lido - e comprado. Todos emergirão do texto se sentindo especiais, únicos... todos eles. Se fosse feito com honestidade, mas não; a grande maioria usa de artifícios desavergonhados e babacas. Goebbels, saca.