23.12.07

Une very stylish fille

Meu primeiro artigo para o Le Monde Diplomatique Brasil.
E algo de que tinha me esquecido de postar aqui, mas que ficou bacana: a partida que arbitrei na Copa de literatura brasileira 2007, que já até terminou. A votação para os nomes da Copa 2008, na qual devo ser jurada de novo, está aqui.

21.12.07

Cores

Agora que secou, o fundo do corredor está parecendo mais Caladryl seco.
Hoje vi um carro laranja. Era um tom de laranja diferente do das lixeiras da Comlurb. Era um laranja aquoso. Aí senti um súbito desejo de comer doce e percebi: o carro lembrava uma gigantesca Bala Banda.
Depois fui num consultório onde a recepcionista negra se chamava Ariane.

20.12.07

Constatei hoje ao voltar da rua: pintaram o fundo do meu corredor de grená. Aprendi essa palavra aos quatro anos, quando decorei a letra de Aquarela de Toquinho ("um lindo avião rosa e grená"), e lembro de partes dela até hoje - e aparentemente ou isso era "memória musical" ou isso me ocupou tanto a memória, mas tanto, que hoje não consigo guardar nem os nomes das pessoas mais chegadas.
Lembro que mais tarde, quando caía a letra G na adedanha, eu era a única que escrevia grená na categoria cor, ao invés de gelo, como todo mundo. Aliás, sustento até hoje que gelo é uma cor que não existe: o que existe é branco-gelo. E grená.
Lembro também que associava grená à Pantera Cor-de-Rosa. E ontem vi uma votação no Cartoon Network: você podia escolher entre um desenho do Pernalonga (retratinho do Pernalonga) ou um da Pantera (retratinho dela). Mas a Pantera estava de frente, o focinho para baixo; é lógico que ia perder. A Pantera é muito mais carismática de lado.

18.12.07

Acabo de mediunizar aqui um dos grandes problemas da literatura brasileira.
Todo mundo tenta ser profundo, seguindo o modelo europeu; mas aqui, a questão é ser raso. A questão é revolver o que está abaixo da superfície. Como numa psicanálise, não é bom jogar na cara das pessoas o ridículo do que andam fazendo; é preciso fazê-las descobrir, como quem lê uma trama. E nada melhor para enredar as pessoas numa trama do que ficção.
É o óbvio óbvio de Nelson Rodrigues, tão mal-compreendido que hoje sua obra é tratada como uma sacanagenzinha cult, inclusive pelas editoras.
Olhando o meu rabo

Outro dia, alguém veio aqui em casa, descobriu que eu roubava conteúdo e me jogou na cara "que eu fazia o que eu mesma deplorava".
Pois é, baixo MP3s via Emule.
Eu fazia isso com um intensíssimo sentimento de culpa cristã, pois era roubar. Mas depois que fiz uma monografia sobre o assunto mudei de idéia. Não totalmente, como vocês vão ver.
Não compro CDs nem DVDs piratas. Não quero financiar aquela merda - a máfia chinesa até que tem uma aura bacana, estou falando é das araras com capas impressas a jato de tinta atravancando as calçadas e impedindo a passagem; fora a poluição sonora de mil "Coréu Uíndos Fotochóp é aqui!" simultâneos, quase que fico surda.
Eu compro CDs. De bandas alternativas que vão ficar com quase todo o dinheiro. E pago por MP3s. Como as do último Radiohead. Na verdade, eu poderia baixá-las de graça, mas fiz um cartão de crédito especialmente para pagar por elas.
Eu não quero é dar meu dinheiro para a máquina das gravadoras. Quero mais é que morram e rápido. Die, zombie, die! Tiro na cabeça.
O mesmo vale para as editoras. Quando conseguirem fazer um leitor de livros digitais decente, as editoras vão começar a acabar. E eu vou começar a vender livros online, bem diagramados. Quem quiser roubar vai conseguir, mas... conto com a esmola digital do leitor.
É Natal, época de furar fila

Eu estava numa fila de elevador de supermercado com um carrinho, quando chega uma senhora com seu próprio carrinho e passa na minha frente, juntando-se à filha que "guardava lugar" para ela.
Eu: Desculpe, a senhora passou na minha frente com esse carrinho?
Filha: Eu estava aqui guardando o lugar dela...
Eu: Mas...
Senhora (levantando a voz): Você vai criar confusão só por causa de um carrinho??
Filha: Criar estresse...
Eu: É que senão não cabe no elevador.
Senhora: Elevador enorme...
Perante um olhar da filha ("ela tem razão"), a senhora retorna para trás de mim, e eu digo "obrigada" enquanto a Senhora arremata:
- É Natal...!

Pois é, os argumentos são sempre os mesmos: quem não quer ser passado para trás e lembra educadamente o direito aos seus direitos é chamado de "estressado", "criador de caso" e, em dezembro, também de "anti-natalino". Eu tenho todos os direitos, o próximo nenhum e, no Natal, ai do próximo que ousar me contestar! É esse, amiguinhos, o verdadeiro espírito-de-porco do Natal (brasileiro).

16.12.07

Você sabe que é anti-social quando...
...de tão acostumada a ver uma pessoa de cada vez, se confunde quando tem que chamar nomes específicos para uma delas olhar em sua direção.
(ah, jogo da memória)

Você sabe que perdeu muitos quilos quando...
...recua um furo na correia do relógio de pulso.
(pff, já chega de emagrecer, não quero ser Brazil's next top model, e aliás que programa pífio)

Você sabe que finalmente pode se responsabilizar por um gatinho quando...
...as pessoas mais díspares elogiam sua casa. Na mesma semana.
(tô dizendo, virei Zen Housewife)

8.12.07

Roubado do Pague o aluguel:

"Você escolhe uma banda e responde tudo com nomes de músicas dela."
Escolho Queens of the Stone Age:

- Você é homem ou mulher?
Little sister

- Descreva-se:
Born to hula

- O que as pessoas acham de você?
Everybody knows that you’re insane

- Como descreveria seu último relacionamento amoroso?
I never came

- Descreva sua atual relação com seu namorado ou pretendente:
Misfit love

- Onde queria estar agora?
Walking on the sidewalk

- O que pensa a respeito do amor?
Like a drug

- Como é sua vida?
I was a teenage hand model

- O que pediria se pudesse ter apenas um desejo?
Millionaire

- Escreva uma frase sábia:
The lost art of keeping a secret

- Agora se despeça :
You got a killer scene there, man
dicas da dona-de-casa

Ah, sim essa cor de esmalte se chama OBSESSÃO. Lembrei hoje, depois de ficar uma madrugada e uma tarde pensando no assunto.

6.12.07

Estava pensando que voltei para os anos 50. Virei housewife. Fico em casa, lavo louça, limpo, uma vez por semana vou ao centro e retoco as unhas. Levo uma carta no correio, aproveito para fazer um pequeno supermercado.
A diferença é que tenho internet. E, com ela, além de trabalhar em casa, trabalho de casa e me sustento.
No fim-de-semana é que vem o "marido". Ele ainda tem que cumprir jornada de oito horas e sobra tão pouco tempo no fim do dia que raramente nos vemos durante a semana. Ainda estamos devendo uma revolução machista, para os coitados poderem ser housewife também. E pararem de ter que demonstrar eficiência máxima, dureza e ausência de sentimentos o tempo todo, coisa que machuca tanto a eles quanto a nós, mulheres.
É muito triste encerrar as pessoas em cubículos quando elas têm mais o que fazer, coisas cruciais e insubstituíveis, como criar filhos, ler, pintar, filosofar, contemplar e pensar, meu deus, pensar. Depois de oito horas você chega em casa com o cérebro em pasta. Se fossem quatro horas por dia, haveria conciliação. Mas nunca são.
No meu mundo ideal, os criminosos de colarinho branco iriam para call centers e ficariam fazendo ligações o dia inteiro, com cotas a cumprir. Sem que eles soubessem, outro grupo (talvez o premiado por bom comportamento) ficaria incumbido de receber as ligações e infernizá-los ao máximo. Duvido que houvesse reincidência.
Hoje a cidade está com uma luz britânica. Ai, que saudade.
cachos de uva

Parei de roer unhas com acupuntura. Depois que me disseram que agora eu podia ser modelo de mãos, pronto: subiu à cabeça.
Também andava querendo variar do template. (Não tenho comments aqui, mas ouço os comments da vida real.) Só não queria ter muito trabalho. Então mandei pintar as unhas de uma cor que combinasse com o template antigo e bati umas fotos.
Em breve, participação especial no Mil e Uma noites.

4.12.07

all in a Copacabana evening

Primeiro eu vi o Wolverine, depois a Bjork, depois a Clarice Lispector.
O Wolverine primeiro, na escada do metrô, bem na minha frente. O que me chamou a atenção foi o cheiro. Depois a proporção Liefeldiana da pequena altura com a envergadura do tronco. A solidez em pessoa. Idêntico, menos o cabelo, uma carapinha colada na cabeça, nada daquelas melenas de easy rider.
Depois, ta da, a Bjork saindo lampeira do Bella Blú. De longe era idêntica, baixinha, cara matreira, a própria esquimó. De perto parecia mais uma índia boliviana (ou minha sogra, que veio do Acre - aquele lugar que não existe).
Aí, quando eu já não estava mais esperando sósias por aquela noite, me deparo com uma boa falsificação de Clarice Lispector parada na esquina. Tinha aquela expressão de empáfia enigmática da ucraniana - ok, estava mais para ucraniana-acreana.
Realmente, a pirataria está comendo solta pelas ruas de Copacabana. Já estão falsificando até gente.

20.11.07

Drops

- Fui revelar um rolo de filme e passei por duas experiências chocantes. A primeira loja simplesmente tinha parado de revelar filmes; deixei-o numa segunda, que me devolveu apenas o rolo revelado; "você disse para revelar, não disse que era para imprimir...". Ãrrã.
Faz tanto tempo que não revelo fotos que nem vi os tempos mudarem; não basta mais largar o filme na loja para obter cópias 10x15 brilhantes de cada pose, sem maiores complicações. Não; filme virou coisa de profissional. Quando finalmente peguei nas cópias e as examinei em cima do balcão, os atendentes aguardaram minha inspeção torcendo as mãos, coitados. Essa parte até achei divertida. Vontade de aprontar um olhar de Sadako e grunhir está puxando pro verde. Nem esclareci que só estava contando as cópias pra não ser enganada no preço.

- Californication parece Two and a half men misturado com a vida do Chuck Palahniuk e uma pitada de House. Sentei, assisti... achei chato. Mas parearam o Duchovny com ruiva de novo, isso não pode ser errado.
Nota pessoal: ser escritor não é esse chick magnet todo. Não no Brasil. Aqui, é cantar pagode ou jogar futebol.
can't quite put my finger on it

Reclamo muito, muito mesmo do hábito do brasileiro de dizer gracinhas e lançar olhares séquiçis para mulheres desconhecidas na rua. Quem não me conhece acha que sou reprimida e amargurada. Depois que me conhecem (meu lado pernas-de-fora) acham que sou esquizofrênica. Até sou, mas falta uma atenção às sutilezas da natureza do meu ódio. É a avaliação apressada e superficial que me enoja, acompanhada pela falta de respeito/semancol em se dizer o elogio para quem visivelmente não o está procurando nem consideraria uma surpresa agradável ouvi-lo impromptu.
Quer dizer, espere ela abrir a boca. E não, não para avaliação da capacidade de armazenamento. Por que só deixar a imaginação correr em uma direção? De repente você não quer avaliá-la apenas pelo seu potencial sexual. De repente você quer avaliá-la como um todo, e pensar "esta aí dava uma boa vocalista de rock", "o sinal abriu e ela não andou", "será que consigo afanar o celular dela?", "vou ajudar a velha senão ela cai", "vou pedir pra ela guardar meu lugar e vou ali lanchar", "vê se anda pelo canto, ô lerda!". Aquelas coisas que o heterossexual pensa dos outros homens, apenas acrescidas de um ocasional "que gostosa". Peraí. O que estou dizendo? Já é muita sofisticação o cara separar as mulheres "namoráveis" das "comíveis", obliterando todo o resto...
O bom da internet foi ter introduzido (melhor que o disk-paquera, que sempre descambou para o phone sex ralo) a possibilidade de se ver o interior das pessoas antes do exterior. Tanto que o fotolog e o Orkut, que já dão a imagem junto, foram um grande alívio para o imbecil digital. Que, através dos seus atos, logo se denuncia.

14.11.07

Então tá, né

Um drinking game personalizado: toda vez que me perguntarem "você é brasileira" ou "você é carioca" ou "você é daqui", eu tenho que beber uma lata inteira de Guaraná Jesus ou Mineirinho.
(Para quem não sabe, Mineirinho tem gosto de água ferruginosa de Poços de Caldas e nunca provei Guaraná Jesus, mas ouvi de fonte confiável que tem gosto de canela com tutti-frutti.)
Hoje, num sebo da Praça Tiradentes, não só me perguntaram se eu era brasileira como foram logo sugerindo que eu era sérvia. Sérvia, gente. Deu vontade de dizer "não, sou uma polaquinha que caiu num wormhole e, puxa, saí aqui nesse tempo de estranhas carruagens sem cavalos".

Esqueci de comprar um pirulito colorido, rocambolesco, tipo Chaves, na casa de doces que tem ali. Esdrúxulo, mas fonte de glicose para garimpar os sebos e andar por tudo aquilo. Cheguei em casa fraquinha, fraquinha... Suponho que as putas recorram ao mesmo expediente de aquisição de energia rápida e barata - por motivos diversos, é claro. Aliás, o comércio daquela área é todo voltado para elas e seus clientes. Para as putas, além da casa de doces, um monte de hotéis baratos e uma loja de bolsas que só vende enormes bolsas de vinil; para os boêmios/clientes, os sebos e lojas de instrumentos musicais, bem como a banca que só vende revista de mulher pelada das bem açougueiras - uma delas se chamava Noras. A vantagem é que tudo fica aberto até mais tarde, sem essa paúra de baixar as portas às 5:55.
Quando dou uma entrevista por escrito, fica muito melhor. Claro, meu forte é escrever, e não falar. Mas não adianta explicar: alguns jornalistas não gostam de entrevistar por escrito. Fica mais difícil distorcer o que você disse. Mas olha, fica bem mais fácil de se extrair aquela declaração bombástica para colocar no subtítulo...
Confira só a minha entrevista ao Alexandre Landim, do Armadilha Poética.

10.11.07

etiquette

Existem três tipos de simpatia no Brasil:
1) a simpatia social
2) a simpatia quero-te-comer
3) a simpatia fui-com-a-sua-cara

A simpatia social são todos os atos, gestos e maneiras utilizados pelo brasileiro para passar a idéia de ser uma pessoa do bem, alto-astral, não-invejosa, de bem com a vida, solidária, que "sabe receber", "se virar" e está "por cima". Esse tipo de simpatia se liga facilmente à hipocrisia e à falsidade, pois não importa se esta impressão tem alguma conexão com a realidade ou não: ela deve ser passada.
De vez em quando os valores a serem demonstrados mudam, mas a simpatia social permanece, bastião da nacionalidade que é.
Aliás, normalmente as pessoas sem nenhuma característica individual distinta, que não conseguem diferenciar a simpatia social brasileira da simpatia fui-com-a-sua-cara, sentem-se traídas ao constatar que uma outra pessoa foi simpática com elas apenas socialmente e não foi-com-a-cara-delas, e chamam-na de "falsa". É aquela infame característica, falsidade, sempre citada como a mais detestada por gente tão falsa quanto.
Enfim, a simpatia pessoal é um grande vício que deve ser exterminado. Estou com os ingleses. Feche a cara para quem você não conhece, ou já conhece mas não gosta, e só abra a cara quando se abrir. Tem que haver alguma seleção, alguns (vão me matar por isso) saudáveis preconceitos.

Tem a simpatia quero-te-comer - você acabou de ser apresentada(o) a alguém e a pessoa fica de olhos brilhantes, estende o contato de pele no cumprimento, é hiperultrasimpática com você e segue um dos caminhos: a) tenta descobrir tudo sobre você ou b) tenta contar toda a vida dele(a). Muita calma nessa hora. Às vezes a pessoa é digna de pena, às vezes de repúdio e muito raramente de ódio. De quando em vez a pessoa é digna de atenção, correspondência e número de telefone. Mas se você já foi simpático(a) quero-te-comer durante muito tempo e não encontrou resposta aos seus avanços, por favor não insista. É constrangedor, além de perda de tempo - para os dois envolvidos.

E a simpatia fui-com-a-sua-cara ocorre de modo inversamente proporcional ao número de intransponibilidades da pessoa: eu, por exemplo, não aturo gente ególatra, abusada ou burra, o que me deixa uma ínfima fatia da humanidade a conferir. Não é que eu tenha resolvido não gostar de gente assim; é o contrário, derivei as características que as pessoas de quem não gostava tinham em comum.
Às vezes até gostaria de ser mais flexível, mas não consigo. Exemplo: acabo vendo menos uma pessoa legal com um namorado ególatra. Você vai encontrar a pessoa e a noite toda o tal namorado tagarela sobre seu interessantíssimo trabalho como assessor de imprensa de banda de rock, impedindo que qualquer outra pessoa na mesa tenha uma conversa produtiva. Pois é: os ególatras burros são os mais intransponíveis de todos... faço qualquer coisa para evitar um. Mas divago.
Uma vantagem de não usar a simpatia tipo 1 é que as outras duas ficarão mais nítidas. Quando você sorrir ou der papo para uma pessoa, ela saberá que aquele sorriso realmente significou alguma coisa. Então, ao encontrar gente legal, demonstre sua satisfação. Mas calma: respire fundo, não exagere, senão sua simpatia pode ser confundida com desespero. Ou falta de sexo. Gente grudenta é intransponível para muitos.

Em suma:
Não é preciso olhar nos olhos dos vizinhos. Ninguém precisa ser amiguinho de ninguém. Basta cumprir a sua parte, ser civilizado em vez de cordial. É mais ético ser simpático com quem realmente gostamos do que ser simpático com todo mundo. Avanços amorosos só devem continuar caso correspondidos. Quando for com a cara de alguém, demonstre.
Agora minha casa será meu escritório. Estou power-scrubbing e flanelando geral - sou minha própria empregada, porque quero me treinar para viver num país desenvolvido um dia. E porque elas me roubam (tenho ótimas histórias) e não limpam direito.
Também estou percorrendo os cantos mais obscuros da Alfândega em busca de acessórios para minha nova vida. Descobri o protetor de piso, você sabe o que é um protetor de piso? É um tapete de um material tipo PVC, transparente e portanto não ofensivo aos olhos, que impede que as rodinhas da cadeira do computador escalavrem meu piso de tábua corrida. Comprei um. E uma cadeira nova. E uma bolsa de cerejinhas para dias de garimpagem de livros. E uma bolsa de nylon para carregar o futuro laptop, dessas de praia (make it look cheap, eis o segredo; moro no Rio e nunca conseguiram, embora tentassem, me assaltar. Posso escrever um dia um manual com meus macetes e fazer milhões.)
Tinha procurado antes em lojas frescas, mas elas simplesmente não tinham o que eu procurava. Nem por um preço absurdo.
Acabei descobrindo o que eu queria quando fui mandar consertar o binóculo alemão do meu avô e procurar redes de proteção para o gato que viverá aqui.

5.11.07

I GOT MOJO

A MOJO é uma coleção virtual de livretos em formato de encarte de CD (que podem muito bem ser impressos). A proposta é: escolher o álbum clássico para você, extrair seu supra-sumo - seu MOJO - e transformá-lo em literatura à altura da experiência sonora.
Uau. Que responsabilidade.
Meu clássico foi Exit planet dust, dos Chemical Brothers. Aliás, os moços (ou, como direi, sêniores) devem tocar agora, esta quarta, em SP - não sei se vou, depende, depende de muita coisa.
Toda a coleção MOJO vale uma conferida - até para você ver como foi tratado o seu álbum do coração, se estiver por lá. O conto que fiz inspirado no Exit Planet Dust chama-se Elidu ou Como se fosse 1995, pode ser baixado aqui e é gratuito, ao menos por enquanto. Curti fazer, até porque é uma boa amostra de como estão ficando os contos novos para meu futuro livro, Amostragem complexa - e, se tudo correr bem, este Elidu deve integrar o pacote. E que o resultado final baste como resposta à indefectível pergunta sobre "elementos autobiográficos", porque estou me concentrando em ser o mais díspar possível...

2.11.07

levando zumbis onde os cérebros estão

Superou todas as minhas expectativas a Zombie Parade do RJ. Achei que ia ser no máximo uma espécie de micareta bizarra, mas que nada: as pessoas brincaram direitinho e foram criativas nas fantasias. O trajeto também foi bem escolhido, começando em frente ao Copacabana Palace e terminando no Arpoador. Uma das pistas já fecha todo domingo e feriado, então não houve problema.
Como éramos zumbis cariocas, saímos uma hora mais tarde do que o combinado, logo depois de atacarmos dois carros abertos de gringos que chegavam ao Palace. Além do básico - zumbi padre, enfermeira e noiva - tinha zumbi palhaço, açougueiro, Jesus, esquadrão cheerleader, jogador de beisebol, Chapeuzinho Vermelho e até a Morte em pessoa. Eu fui de dondoca anos 60 e bati uma foto com o Ibrahim Sued (a estátua dele na frente do Palace).
Teve gente que se assustou de verdade, outros que vieram conversar. Teve gente que achou que era protesto contra a violência do Rio. Comemos elas. Teve dancinha de Thriller. Em dado momento saímos da praia (assombrando ônibus e táxis no sinal), entramos na Nossa Senhora de Copacabana e aterrorizamos lugares como um McDonald's ("minhooocas") e um bistrozinho com mesas na calçada. Uma loura tapou os olhos do filho. Voltamos para a praia e seguimos em frente. Um zumbi pegou um pivete que nos seguia e logo estava uma horda em cima dele. Encontramos uma das vacas da Cow Parade e andamos na direção dela ("picaaanha"). Na segunda parada resolvi voltar para casa porque meus pés estavam me matando... de novo. Quando chego em casa, vejo na lista da faculdade o anúncio de um evento de poesia "para levar poesia onde o povo está" (juro que tinha escrito isso no email). O tal evento seria no final do nosso trajeto! Eu tinha que ter ficado para jantar um poeta de rua.

30.10.07

Da série: traduções horríveis

Black swan, do Radiohead*, começa com o mesmo verso que É o tchan!, do Gerasamba. Pra mim é sinal do apocalipse.

"What will grow crooked you can't make straight" = "Pau que nasce torto, nunca se endireita"

*na verdade, só do Thom Yorke

29.10.07

Já dei uma palha aqui da coleção Encontros (editora Azougue), da qual fui pesquisadora. Vão ser lançados cinco volumes ao mesmo tempo na próxima terça, aqui no Rio, na pizzaria Piola (Paul Redfern, 44). São livros de entrevistas que dão um panorama das idéias de pessoas representativas. Representativas quem, você pergunta? Vinícius de Moraes, Darcy Ribeiro, Rogério Sganzerla, Jorge Mautner e Milton Santos. Os dois primeiros estão divertidíssimos e têm coisas jamais publicadas na íntegra. Os dois a seguir dizem coisas importantíssimas e outras extremamente piradas, todas válidas. E o Milton Santos, que no início da pesquisa eu nem sabia que era geógrafo, passei a respeitar. É um pensador de verdade e ainda picha alegremente o espírito de repartição pública da nossa academia.

28.10.07

Não resisto a um vibrafone. Lembro disso toda vez que ouço Desafinado na versão do Sérgio Mendes - e agora que a baixei, nunca mais vamos nos separar.
Não gosto de qualquer bossa nova, mas me amarro nas instrumentais. Acho João Donato um gênio. Tenho tudo dele. Já fui viciada em dezenas de músicas diferentes tocadas por ele - desde Sambou, sambou a Lunar tune.
Vibrafone tem um hálito de festa de 15 anos chique. Quando eu era pequena, ainda se usava pôr vibrafone e piano nessas festas. Isso foi antes do tecladão com batida pré-gravada assumir. Poxa, eu conseguia até ficar feliz - apesar dos brigadeiros com uva dentro e das malditas castanhas duras, que usávamos para fazer guerrinha.
Quando ouvi um vibrafone pela primeira vez (talvez na casa de minha avó Eunice, em disco) imaginei pérolas. Era um som redondinho, brilhante e chique como uma pérola. Perfeito.
Também adoro marimba e aquela espécie de marimba japonesa que foi usada pelo Little Tempo para o tema do filme The taste of tea (Gosto do chá).

24.10.07

Outro dia vi uma mulher lendo no ônibus. Como sempre, espichei o pescoço para ver o que ela estava lendo... e como sempre, me decepcionei. As pequenas figurinhas nas bordas denunciavam que se tratava de um livro de auto-ajuda. (O único livro com figurinhas não de auto-ajuda é Alice no País das Maravilhas...)
Aí fiquei pensando no porquê de ninguém escrever ficção para essa mulher. Ninguém nesse país. Também, você pensa, por que escrever para essa mulher? E pensa: por que não?
Talvez eu não seja capaz de escrever para ela, mas para um aluno inteligente de ensino médio. Aliás, já estou escrevendo para esse aluno, uns contos com começo, meio e fim, que todo mundo entende o que se passa. Assim: eu ando metade do caminho, o aluno metade (com o PAC dos livros e óculos), e a gente se encontra no meio. Até topo continuar pagando CPMF para isso, mais um pouco.
O fato é que alguns livros da nova literatura são pura masturbação intelectual. E nem todo leitor gosta de ser tratado como atriz de bukkake. Meu conselho é abri-los de olhos semicerrados...

Mas chega de sacanagem. Agora estou lendo uns contos de Machado de Assis - aqueles que ele escreveu para revistas femininas e semanais - e me encantei. Por que não nos deram isso para ler, em vez de "Cinco minutos" e "A viuvinha" ?
Outra coisa com que fiquei passada: esse meu livro novo terá um conto de escola, que eu pensei em chamar de "Conto de escola", mas já havia um "Conto japonês" abrindo o livro, o "Amostragem complexa". "Papéis avulsos", livro de contos do Machado, tem um conto passado no Japão ("O segredo do bonzo") e outro chamado "Conto de escola". Tudo, tudo já foi feito, mas às vezes é impressionante como é refeito tão igual - sem cola nem nada. Será que ele tem algum conto sobre bibliotecas (retake on Borges, desse eu colei)?
Notei também que Machado colocava mulheres poderosas em seus contos (em tudo!) e, engraçado, não vejo ninguém chamando a literatura dele de chick lit.

17.10.07

O freguês sempre tem razão

Cliente: Tem mozarela e mortandela?
Atendente: Desculpe, senhor?
Cliente (achando que a atendente é surdinha, coitada, e caprichando na pronúncia): Mo-za-re-la e mor-tan-de-la.
Atendente: ????
Dono da padaria: Mussarela e mortadela, Fulana...
Atendente: Ah!

5.10.07

Festival do Rio - o balanço final

Não vou falar dos filmes ruins. Até porque este ano eles não existiram. Todos tiveram ao menos algum valor no-nu-nutitri... adequado. Mas vou falar dos melhores.

I'm a cyborg but that's ok - Imagine Bicho de 7 cabeças filmado como comédia romântica e com um roteiro muito, mas muito melhor.
Brando - Durou duas horas e meia e não cheguei nem perto de ficar entediada. Esse documentário sobre Marlon Brando cobre todos os filmes do homem, até O grande motim. Um cartão-postal do filme informava que vai passar dia 28 de outubro, às 22h, num canal chamado TCM Classic Hollywood - não sei nem de que operadora é, mas não perca.
Tabu - Quero ser dançarina havaiana. Também por causa de Brando, mas este aqui foi o que me fez a cabeça. Mistura de Romeu e Julieta, Iracema e Rapa Nui. Mudo. Preto e branco. Atores nativos. Fotografia perfeita.
Amor fantasma - Mistura de Ingmar Bergman com David Lynch, em preto e branco. Not for the faint of heart. Mas é realmente um exemplo de como arte "cabeça" pode se esforçar pra construir sentido. As coisas postas na tela realmente têm uma simbologia, uma seqüência, uma interconexão; os personagens evoluem e as coisas fazem sentido - não só no final, mas depois de 15 minutos de filme. Contei cinco pessoas saindo durante a projeção, das quinze que tinham entrado.
O fim do mar - quantos filmes você conhece que têm um cego e conseguem desenvolvê-lo de forma interessante? Só isso já bastaria para recomendar esse filme. Acontece que o filme tem outras "gold coins" a partir da também aparentemente cansada premissa do cara que encontra a mulher perdida e decide abrigá-la e salvá-la. O encaixe das cenas é quase mágico. E os breakthroughs dos personagens são os mais redondos que já vi, nem um pouco forçados. E o final é satisfatório.
Paprika - Mistura de The cell com The Matrix e robôs gigantes, em anime.

O único filme ruim que assisti foi um curta francês de 20 minutos (que me pareceram 40) chamado Silencio, inserido de surpresa antes de O fim do mar. É aquela história do filme cabeça não se esforçar pra ter sentido. Aquilo era uma peça de propaganda contra a distribuição de moviolas a adolescentes drogados. Para se ter uma idéia, um velhinho atrás de mim começou a gritar TIRA ESSA MEEERDA! lá pelo 12o minuto. No final do filme, ele já estava destilando seu francês: UUU! C'EST LA MERDE!, e quando apareceu o nome do diretor, CONNARD! Normalmente eu pediria para uma pessoa dessas ficar quieta, mas meu espírito tinha ido dar uma volta fora do corpo.

30.9.07

burrice emocional
(ou: ficção, realidade e esquizofrenia)

Você conhece uma mulher pelo jeito como ela é burra.
A mais trivial das burrices é gostar dos homens errados. Atrás dela, seguindo bem de pertinho, emparelhando quase, vem a escolha do parir, seja cedo, tarde demais ou múltiplas vezes. Algumas profissionais da burrice conseguem combinar os dois, concebendo múltiplos filhos de diferentes homens, todos errados, cada um por um motivo particular.
Eu não sei onde é direita e esquerda; meu primo tem isso também, chama-se dislexia. E não consigo determinar quando e quanta gorjeta é apropriado.
Questões como essa me atormentam por um tempo acima do normal:
Se eu apanho a chave do bicicletário com um porteiro e quando volto é outro, 1) devolvo-a ao outro? B) devo dizer-lhe obrigada, embora esteja agradecendo ao outro, que me deu a chave, ou devo agradecer-lhe simbolicamente como a todo o corpo de porteiros? C) Quando eu encontrar o outro porteiro, devo agradecer-lhe por ter me cedido a chave? (Sabendo que as pessoas não pensam assim, será que ele vai se lembrar - e entender?) E da próxima vez agradecer-lhe ao recebê-la de suas mãos, e não depois ou ao devolvê-la?
Como disse, questões como essa me atormentam... eu seria reprovada no teste de Turing!
É por isso que gosto tanto de Philip K. Dick, entre outras (muitas) coisas. Ele tinha o mesmo problema. Chama-se esquizoidia. Consiste em ter percepções das coisas que ninguém mais tem, e portanto tomar decisões que ninguém mais toma e muito menos vê sentido. “For example, we decide not to go on the freeway during rush-hour traffic but take that good old back road that nobody knows about except us.” Às vezes você congela e não consegue fazer nada; às vezes, sai fazendo coisas desenfreadamente sem nenhuma autoconsciência (dançar que nem a Bjork, por exemplo).
Sou quase impossivelmente boa em fazer trabalhos especializados e isolados, como pesquisar. Anteontem descobri que podia consertar o mau contato no cabo do laptop abrindo o fio e fechando o circuito com a chave do armário da biblioteca e vedando com os dedos de uma das luvas de látex - a esquerda. Agora, me coloque para atender o telefone.
Quer dizer, é uma característica que ajuda, mas não é muito bom para se relacionar com os outros ou parecer humano. Ou mesmo fazer sentido.
É aí que o esquizo-escritor entra. Os universos que construímos não formam sistemas. Temos ótimos pedaços de teorias que não se aglutinam nem formam “Teorias de Tudo”. Os personagens que construímos jamais poderiam sobreviver na vida real, fora dos fragmentos de universo em que os posicionamos. Se eles pudessem ter vida própria, e caminhassem para fora do mundo, cairiam no Mar dos Monstros - e é um pouco essa a sensação que temos com respeito a realidade em geral. Nosso mundo é plano - mil platôs - e por isso cabe bem numa página. Mas é isso: somos tão bons ficcionistas como maus realistas. Estamos sempre apagando a lousa e recomeçando a escrever nela. Como será que vou agir hoje? Isso não nos desestimula, pelo contrário: cada desenho é um novo desenho, cada chance é uma nova chance...
Estou fazendo um conto sobre isso também.


De bônus, segue um vídeo musical de anime.

são apenas movimentos vaaaagos
(e aqui outra versão, que costuma desviar a atenção da letra)
“Será isso uma das muitas formas de escapismo de uma sociedade doente e entediada a essa realidade saudável e dionisíaca que é sempre a marca da boa música popular? Evidentemente. A música com saúde passou a constituir um elemento “Onézimo” no ambiente escuro e enfumaçado das boates pequenas. As estátuas de talco precisam – para serem convenientemente cantadas pelos manequins de cera – de ritmos emolientes, pervertidos e agônicos à meia-luz de pistas de dança mínimas, pois o amor das estátuas e dos manequins não pode se executar senão à vista dos demais. E como é um amor que, em geral, não resolve, que lhe resta senão exibir-se? E para exibir-se, que lhe resta senão estimular a morbidez dos ritmos que propiciam essa exibição?”

Isso foi escrito há mais de cinqüenta anos por Vinicius de Moraes sobre o bolero, na revista Flan - mas se aplica otimamente ao emocore movido a fotolog.
Quero ser feliz, pô. Dançar que nem a Bjork e sorrir na pista de dança. O engraçado é que as estátuas te olham condenando, como se você fizesse aquilo só pra aparecer (mais do que elas). Devia fazer a dança da bundinha nelas, quem sabe entusiasmo pega.
My hips don’t lie: é melhor ir nas festas de eletrônica, lá pelo menos o clima é mais dionisíaco.

24.9.07

Tem que ler boa ficção. Sabe o que é boa ficção? É aquela que você lê e você fica pensando que o autor é um demente incapacitado. Certified.
Boa ficção. Eu leio até a Desciclopédia. Adoro a Desciclopédia.
É a inteligência a serviço da criatividade e vice-versa.
Quer dizer, primeiro vem um americano vegan (não sei se é, mas olhe as figuras) e resolve fazer uma enciclopédia que põe por terra todas as distinções de autoridade. O despossuído desdentado e o PhD de Stanford têm a mesma chance de colaborar com um artigo, cada qual com seu respectivo conhecimento/experiência/pesquisa, desde que tenham acesso a um computador. Provavelmente o despossuído vai pegar um artigo sobre gírias e o PhD um sobre os pontos de contato entre topologia e teoria das supercordas, mas é isso aí. Bunito.
Acontece que a Desciclopédia é muito melhor, porque pega esse conhecimento e o instila de milhares de referências culturais, muitas obscuras ou restritas a nichos, e mente, mente, mente até a total perda de sentido. Não só faz humor em cima do dado enciclopédico como também ironiza os critérios de admissão de um dado como enciclopédico, fazendo pipocar páginas sobre celebridades instantâneas e falsas citações de e sobre as mesmas.
A Desciclopédia é uma grande piada desinformativa em cima da avalanche de informações, “informações” e visões de mundo que atualmente nos soterra.
Dá para perceber que as pessoas que mexem naquilo ali são de algum modo inteligentes só pelo modo como as desinformações são tratadas: parcialmente. Nas páginas sobre animes e mangás, alguns enredos (reais) são explicados em detalhe e, quando o leitor está completamente confundido, no final do parágrafo vem, por exemplo, um redentor “Se mata” - demonstrando que o próprio desciclopedista achou aquilo sem nexo. As principais vítimas dos desciclopedistas são os emos e os falantes do miguxês, outro sinal bem claro de inteligência.
Também há a pinçagem de arquétipos maravilhosos, com exemplos muito provavelmente reais, agrupados num artigo. Exemplos: a Guria Retardada e a Nerd Gostosa. É a crônica de costumes gone awry.
Não é perfeito. Alguns artigos não têm graça ou batem na mesma tecla - a tecla errada. Mas para isso existem as etiquetas, também chupinhadas da Wikipédia, sendo uma das mais úteis “este artigo não é nem um pouco engraçado”. Vai lá alguém e edita até ficar certo (ou seja: completamente errado).
Fazer o quê? Superou em muito o mestre.
Desse tipo de twist é que sinto falta na literatura brasileira. Alternância de vozes, troca-troca de fantasmas, absurdos coerentes. Pretendo pôr meu níquel na caixinha.
grandes novidades

O ano de 2007 trouxe mais músicas-de-que-todo-mundo-gosta-e-que-eu-não-suporto:
Crazy, do Gnarls Barkley
Amy Winehouse

A Britney e a Cat Power são coisas completamente diferentes, mas que suscitam a mesma reação em mim: consigo ouvir, desde que não se aproxime nenhum fã ardoroso defendendo a qualidade inquestionável da arte da sua ídola e de todas as suas músicas. Aí dá noja.
Mas gosto muito de Kate Nash e Lily Allen. Muito mesmo. Elas têm um lugar no meu coração. Elas conseguem reclamar da vida sem caírem no conto da emo-choradeira (He war) nem no da sistah-poderosa (I'm a survivor) nem mesmo no da decadence sans élegance nenhuma (Rehab). Elas dizem que a vida não presta de um jeito fofo e dançante. Os ingleses dominam mesmo.

15.9.07

Lista de nomes de que já chamaram JP:

Monk

Pai Mei

Shrek

Sulley

Eric Bana

Dwight McCarthy

inglês chato de filme

espírito-de-porco

avô

Estou muito orgulhosa.
Always in motion



Agora a minha pesquisa se dá num lugar que é um verdadeiro cenário de shoujo anime. Uma suave brisa desfralda folhas e pétalas ao meu redor enquanto caminho, além de balançar as roseiras em flor. Crianças fofas brincam no jardim (e no kindergarten ao lado) produzindo um suave burburinho em uníssono com os pássaros. Pessoas altas, andróginas, bem vestidas e de boa postura circulam silenciosamente pelo chão pintalgado de luz-e-sombra. Uma delas tinha cabelo azul.

Aliás, parece que agora querem transferir meu curso universitário decente da "Ohtori Academy" aqui
(foto de C.E.Ribeiro)
para cá:


Blocão-de-concreto é tão feio feio feio! Fugly ugly! Aliás, o curso de Belas-Artes funciona lá, o que acho no mínimo irônico. Quero estudar num lugar inspirador e acolhedor, com vento nos cabelos e ao lado da piscina, não ao lado do futum maléfico da Ilha do Fundão.

13.9.07

O papagaio de pirata no canto superior esquerdo sou eu.


O Globo - 12/09/2007 - Abertura da Blooks

Eu estava olhando nos olhos da figurinha de William Bonner caída no chão, recostada no poste de preguiçosa que sou. De repente, sinto um forte cheiro de bóia. Era a performance chegando para se colar ao meu poste. Tive que cedê-lo. Observando a performance, percebi que a figurinha do William Bonner tinha caído no chão durante o ensaio da performance. Voltei a olhar para William Bonner, pensando "que cheiro de bóia!". E aí bateram a foto. E apanhei William Bonner do chão e entreguei a um deles.

12.9.07

Coisas muito estranhas acontecem. Acordo às 8 da manhã sem despertador (sempre acordo às dez, desde criancinha) com a idéia de um post (este último, abaixo) sobre morte. Toca o telefone e uma pessoa próxima faleceu. Paro de zapear num programa sobre xamãs e sinto o corpo estranhamente formigante. Dali a pouco, sentada na varanda, vejo a montanha em 4-D. Não por um segundo ou um minuto: pelo tempo que eu quisesse. Assim como um estereograma que mudava o padrão de estampa.
Hoje acordei às seis da manhã. Lembrei de um trauma de infância. Desarmei-o como uma bomba. Aproveito a manhã livre para planejar uma viagem em frente ao computador, e depois me vem a idéia de um post em inglês, que escrevo no Word. Quando chego em casa, à noite, recebo a notícia de que Renan Calheiros foi absolvido. Decido que a hora de postar isso não podia ser mais adequada.

P.S.: Alguém lá fora urra "MENGO! MENGOOOOO!"

11.9.07

Não consigo pensar na morte como algo ruim. Sou mais os franceses, que chamam o orgasmo de pequena morte. A morte, então, seria um grande orgasmo, ãnhnn? Deve ser: uma espécie de repouso tântrico.
Lembro de quando pensei como seria a morte. Eu tinha quatro anos. Acho que minha bisavó (que eu chamava de bivó) tinha morrido, mas eu não tinha tido muito tempo de me apegar a ela. Então fiquei pensando. "Morrer deve ser que nem dormir", pensei, "fica tudo escuro". Pensei isso deitada na cama. Fechei os olhos e me imaginei morta. Então entendi a expressão "o sono eterno".
Depois me ensinaram toda a tal baboseira de anjos, nuvens e harpas versus chamas, enxofre e tridentes. Tentam pegar você cedo, mas comigo não foi cedo o suficiente. Até os três anos eu tinha estudado num colégio laico.
Lembro da minha primeira prova de religião. Eu tinha cinco ou seis anos. Tirei nove e meio. Respondi assim à pergunta "o animal pensa?": "Sim". Imediatamente precedida por "o homem pensa?", à qual também respondi sim. A freira chamou minha avó na escola (juro), chegou para mim e ficou tentando me convencer de que o animal não pensava. Argumentei que na historinha da Mônica ele pensava sim. A freira e minha avó se entreolharam, riram, e disseram que era invenção, coisa de gibi, que não contava. Argumentei que o animal pensa, sim, porque tem que pegar comida e saber onde se bebe água. Minha avó respondeu: "Sim, Simone, ele pensa, mas não raciocina...". Eu disse que se era assim, deviam ter colocado a palavra exata na prova, mas entendi pelo sorriso acuado da freira que a maior parte dos pirralhos da minha idade não saberia o significado de raciocinar; e que o objetivo das duas perguntas em série era me doutrinar: o homem era superior aos animais. Eu continuei sem concordar, mas desisti de argumentar. Entendi que o sistema não prestava e que era melhor fingir me submeter a ele. Me fizeram apagar a resposta certa e escrever não.
É por isso que não consigo ser de direita (ou de esquerda): não consigo achar que o homem tenha algo de especial (centelha divina? razão?) sobre todas as outras espécies (vide este post, "Selva de pedra", em que o autor considera como seria bom ser elefante, deu vontade), nem que haja nele algum tipo de centelha de bondade intrínseca que seria despertado em uma pretensa sociedade ideal. Acho melhor viver numa sociedade onde a ladroagem é inibida e regulada do que numa em que a ladroagem supostamente não existe e portanto nenhuma punição é prevista para ela.
corna de mim mesma

Até essa tal de Filipa Borg apareceu no Blooks e eu não. ;-)

10.9.07

pequena reflexão

Se leio um livro e fico pensando, essa pessoa de quem o alter ego mal-disfarçado do autor fala, acho que sei quem é, ou aposto que essa pessoa existe, isso estraga o livro para mim. É que tenho uma imaginação maldita que triangula tudo. Imagino logo o autor falando com a tal pessoa e observando tudo com avidez de caninos pontudos, observando seus maneirismos e a reação dos circunstantes a ela, tomando notas mentais para depois escrever. Aí fico com raivinha do escritor, e não consigo esfregar as mãos junto com ele, cupincha, e rir porque compartilho de sua noção do quanto o indivíduo retratado é ridículo. Um livro assumidamente todo baseado nisso, no entanto, teria seu interesse (estou atrás de um com esse perfil).
Suponho que personagens de livros famosos e bons tenham sido inspirados em pessoas reais - penso em Clare Quilty, de Lolita, e no Gatsby de O grande Gatsby -, mas o aspecto vingancinha é completamente perdoável quando a pessoa "vampirizada" ganha vida própria no papel.

9.9.07

Concentração

Resolvi zerar o Sonic e o Castle of Illusion de novo. O Sonic tem duas músicas muito boas: a da Marble Zone, que é um tanguinho midi, e a da Starlight Zone. Minha música preferida do Castle of Illusion é a Spiders, em que o Mickey tem que pular entre folhas flutuantes salpicadas de orvalho e fugir de teias de aranhas. Bem relaxante.

30.8.07

qualquer lugar pra onde se passe por concurso

Entre em qualquer repartição pública e filtre os pontos de exclamação ! ! ! Um alarido de viveiro que parece que todo mundo está com a bexiga cheia no frio. Mulheres sem tenência jogando a cabeça para trás para gargalhar e piruetando nos saltinhos para enfiar um relatório na máquina de xerox do corredor. Os homens tontos e incontinentes, sem saber para qual olhar, fazendo gracejos com voz rascante. Tremula a bandeira do Brasil lá fora. Ouço o início da sinfonia de O guarani.
MEDO de partilhar elevador com essa gente. Recíproco, o elevador inteiro estranha de volta: a minha falta de fair play e a minha falta de ‘roupitcha’ (clique para um exemplo prático). Quando estive desempregada quase fiz um concurso pra esse lugar, por chateação patermaterna. Eu teria passado.
Entra no elevador uma pessoa que tem compostura, decoro, recato e reserva: terceirizado ou consultor que não está com a vida ganha ainda.

23.8.07

Tempo

Há tempos em que se entra numa anorexia de leitura e escrita. Dos 13 aos 15 e meio fui mais ou menos assim. Eu configurei meu primeiro computador sozinha e mandei ver em muitos jogos. Matei muitos monstros, empurrei muita caixa, catei muita munição embaixo d'água. Eu jogava uns adventures esparsos, mas o grosso ia para a violência não-sublimada virtualizada. Se não consigo criar eu destruo com idêntica energia. Questão de qi e não de QI, o que muita gente não entende.
Agora estou me preparando para um momento de bingeing de leitura, com o ano que ganhei de presente para escrever. Vou poder ler tudo o que ando comprando. E é isso que vai me fazer escrever bem depois: mais tempo lendo que escrevendo. Mais tempo reescrevendo que enchendo páginas (bytes). Mais tempo pensando do que todas as anteriores.

22.8.07

Eu vou falar uma coisa horrível agora para quem não sabe ou não percebeu: esse país e eu nunca nos bicamos. Não digo que a culpa é dele ou é minha, mas nossas práticas são diferentes. Talvez eu seja uma nova espécie de brasileira ou uma velha espécie de inglesa ou japonesa, mas o fato é que não furo o sinal com minha bicicleta, não jogo papel na rua, valorizo extremamente o silêncio e a natureza, e detesto a obviedade de um olhar lúbrico eterno pregado à minha bunda. Me identifico mais com os índios autóctones do que com essa descivilização encruada que parece só saber poluir, gastar e desperdiçar.

Na fila da C&A eu vejo um pobre com vergonha de recusar o cartão da loja dizendo que sempre estoura o limite dos cartões que já tem e tem que completar no próximo mês, mas acaba fazendo o novo cartão por pura timidez; atrás de mim alguém diz que o tênis de 139,90 talvez não passe em seu cartão mas vai tentar assim mesmo; viro-me e vejo que é uma mulher com uniforme de faxineira. Eu nunca comprei sapatos tão caros, pois sei que eles não valem isso. Por que os pobres não têm estrutura para resistir ao consumismo e se sentir ultrajados ao ver que lhes querem empurrar algum supérfluo goela abaixo? A educação é uma parte da resposta, tenho certeza, mas não é só isso. Temos mesmo uma espécie de orgulho mal-ajambrado, uma cruza entre o célebre complexo de vira-lata conforme o batizou Nelson Rodrigues misturado a uma "consciência" de que agora seríamos uma "nação emergente" e próspera: preferimos revirar e comer lixo do que ir bater na porta da Casa Grande e exigir direitos. Quando um não agüenta e exige (“meu filho foi assassinado por policiais”), só então outras vozes se levantam: para barrá-lo, impedi-lo de se estressar, assegurá-lo de que nada vai mudar e pedir-lhe por favor que não seja chato. É a famosa turma do deixa-disso. Tudo isso já foi batizado e catalogado por um ou outro sensato, mas somos uma nação que gosta de chupar o óbvio até derreter para durar mais e que gosta de burocracia, portanto arquivamos o acórdão para deliberações futuras do relator.

Somos uma nação de personalidade complexa e distorcida. Talvez seja a personalidade do futuro, talvez seja uma característica que nos faça sobreviver aos piores perrengues que certamente a mãe-natureza reserva aos humanos nos próximos séculos, numa justíssima vendetta. Nós, que nos contentamos com pouco e na primeira oportunidade batemos um sambinha rasteiro, talvez logo tenhamos pouco para nos contentar. Nos ajustamos em qualquer lugar, mesmo nos mais desfavoráveis, como marias-sem-vergonha. Ou melhor, nós não, porque se os, hum, três-quartos não-brasileiros do meu caráter prevalecerem, eu pereço.
Acho que tenho que parar de ler críticas a novos autores em bloco... é tão gostoso poder dizer que todos são uma bosta. Eu mesma gostava, sempre tendo o cuidado de excluir meu nome do rol. Mas como ninguém prestava eu não lia ninguém e não sabia o que estava acontecendo nem o que tinha acontecido. Parei no meio de um oceano sem vento. Puxei a cordinha e liguei o motor (é um bote): resolvi ler o que está sendo feito agora e procurar realmente captar o que as pessoas têm a dizer, mesmo que a mensagem tenha vindo truncada.

Os resultados foram excepcionais. Logo divisei as genuínas fraudes, as que nada queriam dizer, dos que tentavam mas (por qualquer motivo) não conseguiram ou conseguiram pelo menos parcialmente. Havia os "isso não pode se perder, devo registrar o que vejo", havia os "minha vida é foda, os outros devem vivê-la através da minha autobiografia disfarçada", havia os "quero criar uma obra nesse estilo consagrado mas com a minha cara" e havia os "quero criar algo que diga algo".

Logo comecei a querer ler mais, visitar sebos, querer conseguir livros esgotados, russos, americanos satíricos, franceses do início do século passado - pois magicamente um livro puxa outro, e com alegria. Também melhorei como escritora, pois conseguia ver onde outros tinham falhado e os terrenos que já estavam esgotados. Também consegui ver matas virgens onde eu poderia me perder e onde, se o leitor quisesse, também poderia. Os bons livros antigos contêm caminhos considerados exauridos que hoje já floresceram novamente e podem ser transitados com bom proveito.
Um último aviso. Ler livros ruins pode ser bom para a saúde literária, mas ler livros horríveis só gera cinismo e desesperança. E ler livros bons e ótimos é sempre um exercício de humildade - mas ai, tão poucos! Recomendo Ada, do Nabokov.

18.8.07

As pessoas bonitas deviam escrever mais.
Cheguei a essa conclusão depois que tive que dizer não a uma poeta de rua. Você leu certo, uma poeta de rua. Eu sempre digo não aos poetas de rua, mas é a primeira vez que tenho que dizer não a uma.
Ah, mas por que você diz não a poetas de rua? Ora, bolas, não é óbvio que estão se escorando numa mitologia dos anos 70 de poesia-de-mimeógrafo para sobreviver? Se quisessem fazer poesia a sério, leriam muito, começariam num blog, ou em casa, melhorariam e só depois começariam a procurar uma editora. Eles pularam todas essas etapas. Por que será?
E nunca vi um poeta de rua estender seu livro para uma gordinha ou feiosa - alguns até se escondem das interessadas -, mas observei que pulam (literalmente) na frente da mulher bonita perguntando se ela "gosta de poesia". Também exibem o comportamento predatório dos empregados de financeira vestidos de fruta cítrica em relação às velhinhas solitárias, o que me agasta.
Como se tudo isso não me deixasse certa de que não era a sério, confirmei com uma amiga poeta (publicada e com sucesso) que leu o trabalho deles (teve essa pachorra): é nível de quinta série.
O que nos leva à minha teoria. Um dos grandes motores de toda atividade artística é atrair o sexo oposto (ou o mesmo, whatever). As pessoas bonitas logo percebem que não precisam escrever para isso, e as feias vão para a escrita por falta de alternativa. Afora os feios que escrevem coisas geniais sem muito esforço, a pessoa feia não se esforça muito para desenvolver o dom porque só os feios estão escrevendo, mesmo. Se mais pessoas bonitas escrevessem, talvez os feios se esforçassem para escrever muito melhor, pois a concorrência estimula melhores ofertas. E pelo menos uma pessoa bonita será um gênio que escreve coisas geniais sem muito esforço. Ou seja, só se tem a ganhar. O mesmo se aplica às demais atividades intelectuais.
Eu? Eu escrevo em causa própria. Para encantar pretendentes, prefiro um batom.

16.8.07

O problema de movimentos de orgulho (gay, negro, chamar a velhice de Melhor Idade) é bem óbvio. De "também sou gente" passa-se a "eu sou o máximo", e quem não concorda pode ser metralhado por acusações de preconceito. É que, numa sociedade cristã, liberar o orgulho é liberar um "pecado"; é liberar os piores instintos que a pessoa reprimia por medo de ir pro inferno; é inflacionar a auto-estima a níveis sem precedentes, porque nem todos têm uma filosofia laica ou mesmo pessoal por baixo para impedir que se achem mais importantes que o não-gay, o não-negro, o não-velho e comecem a se autoatribuir direitos extras completamente injustificados. Sim, tenho um exemplo.
Outro dia um velho deu uma encostada em mim numa fila e eu reclamei em tom normal: “O senhor pode manter distância, por favor?” A resposta irada dele foi: “Olha aqui, você respeite a minha idade!” E eu rebati: “E o senhor respeite a minha juventude!”. Ficou por aí.

15.8.07

Ficam me negando a nacionalidade porque não caio no estereótipo. Desconhecidos em supermercados.
Perguntei a um atendente onde ficava tal produto, ele me disse, e quando ele foi embora uma pessoa a meu lado soltou impromptu “você é daqui?”. Aconteceu várias vezes, muitas mesmo. É um incômodo real pros outros ver que nasci e cresci aqui no Rio e sou desbronzeada, educadinha, tenho ojeriza a roupas de jersey*, não gosto de ser interpelada por desconhecidos etc. etc.
Ao desconhecido do supermercado que me interpelou - lembro que virei para ele, estudei-o com uma cara intrigada, vi que não nos conhecíamos e que o tom da pergunta, apesar de ser uma indiscrição, era de pura curiosidade irreprimível - séria, respondi que sim.
- Mas não nasceu aqui.
- Nasci, sim. Nasci aqui.
- Nasceu no Brasil; mas não no Rio - afirma peremptoriamente o desconhecido.
- Sim, nasci aqui, no Rio de Janeiro.
- Ah... (longa pausa) Não parece!
Comecei a fazer a engenharia reversa dessas perguntas todas e suas respectivas ocasiões e a motivação me pareceu transparente. Incomoda o modo natural com que faço as coisas, como se estivesse familiarizada com elas, mas ainda assim não as aceitasse. Pego um ônibus, mas sento retinha. Realmente esse é um país para acomodados, e é só pelos incomodados que se faz força: pra marcar com a letra escarlate, ou melhor ainda, expulsar à base de muita pressão e invasão. E é claro que também não me conformo com isso.
Se eu fosse uma carioca normal, atenderia o desconhecido no supermercado já com um sorriso, que afinal ele teve o bom-gosto de prestar atenção em MIM!

*daquelas estilo mock-Pucci que andam em alta. Eu tenho uma delas, mas comprei como uma piada, para poder usar penteado alto e rímel junto. Nostalgia osmótica da Cruzeiro pesquisada na Biblioteca (de 60 a 70).
Ler é coisa de mulher

Mulheres brasileiras: larguem de comprar roupa e ver novela e de ler sobre gente que faz o mesmo.
Elas já foram nosso principal público leitor (tanto que Camilo Castelo Branco dirigia-se às suas "leitoras"), quando não trabalhavam. De repente, começaram a trabalhar e...
Será o trabalho?
Às vezes acho que devia haver duas modalidades de trabalho. Uma, a que existe hoje, oito horas por dia mais uma para o almoço, e a outra, meio-período, quatro horas por dia com salário reduzido. Porque no final do dia atual de trabalho, o cérebro vira suco.
Mas não funciona assim. Senão, por que os sábados vagando em círculos por shoppings superlotados? De onde sairia a energia para fazer uma hora de spinning? Sair para dançar? E pro barzinho?
Uma sugestão: da próxima vez que for destruir o cabelo com escovas progressivas para depois reidratar as madeixas prejudicadas, leve um bom livro para não apanhar germes daquelas revistas sebentas.
Claro que todo esse aparato - o cabelo que não pode ser uma palha e o regime e a academia - tem uma função subjacente. Só que, ao contrário do que ditam as tais revistas sebentas, um novo amor não vem pela roupa nova, pelo cabelo alisado, nem pela atitude sempre-à-procura. Pode vir com uma mudança de percepção... que uma boa leitura sempre causa. Mudança de dentro para fora, para variar.
Se o seu lance é competição, saiba que habilidades intelectuais sempre deixam um sorriso amarelo nas rivais, até porque são raras.
O mais bacana é que, como cada pessoa faz sua própria seleção do que vai ler, 1) as personalidades ficam muito mais bem-marcadas 2) há muito mais assunto na roda. É diferente de uma novela, por exemplo, de que todos viram o mesmo capítulo na noite anterior. Você viu aquela hora em que a prostituta vivida por Camila Pitanga leu A dama das camélias na novela das oito? Eu não vi, mas todos que assistiram a cena vieram falar comigo... e eu, que já li o livro, tive muito mais a dizer a eles do que eles a mim.
Então, quando o celular não pegar no metrô, abra o livro. Fila de dentista? Livro nela. De banco? Melhor ainda.
Carregue sempre um com você. Não dizem que bolsa de mulher tem de tudo? Então porque não um livro? Tire, sei lá, o secador. Ou aproveite a desculpa para comprar uma bolsa maior (e que seja uma das últimas atitudes fúteis).

PS: Se eu puser aqui "segure o seu homem" ou "como segurar seu homem", aposto como o público-alvo vai cair direitinho aqui. Essa dieta funciona tão bem quanto o final da novela das 8. Resenha de Melancia e morte a Bridget Jones. Os fins justificam os meios.

5.8.07

Tenho a impressão de que minha popularidade aumentará muito quando eu for velha. Poderei namorar um velho em corpo de velho, por exemplo. As velhas também me adoram, por algum motivo.
Outro dia tive que apertar algumas roupas (o regime teve bom termo) e entrei num recinto com três mulheres acima de 50 anos, não propriamente velhas, mas cada coisinha que eu falava ou agia acertava tão completamente em cheio, que saí (após desejar "bom trabalho" e receber calorosos agradecimentos) sendo seguida por três olhares já saudosos. Eu tentei pensar que era a solidão delas, encerradas as três ali o dia todo e sedentas de companhia, mas entraram mais umas duas mulheres deixando e levando roupas a ajustar e as costureiras não foram simpáticas além do necessário.
Como se precisasse de mais confirmação, entrei num sebo e perguntei pelos livros da Colette. O atendente coçou a cabeça e chamou o dono do sebo, que era um velhinho gênero Dumbledore sem barba. Ele sorriu e disse que os livros da Colette eram do tempo dele, enquanto o procurava. Não encontrou e tentou me empurrar um livro da Françoise Sagan, não de uma maneira shill (aumente seu vocabulário com Simone), mas de uma maneira graciosa (até por ter acertado na correlação). Agradeci e disse que tinha comprado um no dia anterior, o que era uma pena. Ele olhou a minha lista completa e disse, com um ar de admiração, que os meus livros eram muito difíceis de se encontrar. Agradeci embaraçada e saí, aquilo já estava virando flerte. Se JP não existisse, eu mais um pouco virava herdeira de sebo.
Eu realmente não faço de propósito, assim como não sou estabanada socialmente junto à "minha geração" de propósito. Às vezes sinto uma pressão para que "volte ao mercado", não "desperdice" minha juventude com um só (para desperdiçar com vários). Mas os jovens não me interessam, só os que são rabugentos, dizem que o frio acaba com suas juntas e batem nos outros com a bengala.
Estou transformando isso em conto, é claro.

2.8.07

Fiquei viciada em cadernos verticais. O que comprei na Papelaria União dizia na etiqueta: “caderno de taquigrafia”. Achei engraçado. Quem ainda usa ou sequer lembra do que é taquigrafia, afora os // que substituem “mente”?
A União, aliás, está encolhendo. Primeiro, surgiu aquela “butique de cafés” no subsolo. OK, café e livros combinam, mas de alguma forma aquilo já me deixou ressabiada, como o prenúncio da queda de um império. Hoje fui lá comprar meu bloco e quase parei na entrada: a União tinha virado uma saleta ao lado de um hipercool sushibar! Entrei na saleta, incrédula, e girei para medir as dimensões tão papelaria-de-bairro; divisei atrás da entrada uma escada que conduzia ao andar superior, com a plaquinha conheça nossa sobreloja!, ponto de exclamação. Subi. Lá em cima a União parecia refulgir em toda a glória do passado, cores claras, piso reluzente de colégio, prateleiras imaculadas, cadernos em pilhas exatas como se cortadas a faca – uma espécie de utopia TOC. Estudando-os de perto, porém, notei que os itens eram esparsos e danificados, como se o estoque estivesse acabando e nunca mais fosse ser reposto. Suspeitei que era essa a verdade.
Enquanto isso, saiu mais uma matéria no jornal sobre os cadernos Moleskine. Cadernos Moleskine me dão ódio. Me parece coisa de esquerdista com Audi que vai tomar capuccino no Espaço Arteplex (esqueci que Espaço de Cinema já não é mais o último grito da moda, aaah), onde, emproados, farão anotações estudadamente casuais (querem ser poetas ou estilistas ou artistas, sempre!) com uma caneta-fetiche e serão abordados por outro idiota (“Esse é um Moleskine?”) para uma conversinha estudadamente casual sobre tópicos idiotas. É preciso dizer que este tipo de gente pululava na minha faculdade, embora nem todos tivessem Audi. Agora que faz um terrível frio de quinze graus no Rio é fácil reconhecê-los: são os que se vestem de modo a fazer meu namorado me perguntar se por acaso erramos o caminho e viemos parar na Noruega. Um dia essas almas voltarão a lembrar (via imprensa) da União e a cobiçar seus bloquinhos, abandonando os Moleskines aos recados garranchosos da empregada.
A Casa Cruz vende um Moleskine da Tilibra por três e cinqüenta. Fui atrás do da União porque se encaixa na minha mão como uma bola de handebol (eu era a goleira, e boa, quando não me distraía com alguma nuvem). Escolhi o verde porque me lembra a encadernação dos Monteiro Lobato, mas também existe em preto-fórum e em moderno teal (azul-petróleo, mas juro que é verde). Recomendo.

P.S.: Quanto à história da recorrência de palavras exóticas: escrevi este post ontem e logo depois topei com um texto de jornal que falava de um escritor que tinha escrito todo o livro em um "bloco tilibra", hah.

30.7.07

Acabo de descobrir uma palavra ótima: mousmé. É em francês, mas andou sendo adotada por aqui nos anos 50 e 60. Encontrei-a num texto da época, adjetivando uma moça. Pesquisei e descobri que mousmé provém do japonês musume, que quer dizer moça mesmo (mas isso eu já sabia). Tenho vontade de dar esse nome a uma das partes do meu livro novo, a um conto, ou ao livro todo.

23.7.07

Regina Benitez. Lembra um pouco Clarice Lispector, tem um toque de Marina Colasanti, mas não é assim tão intensa. Intensidade às vezes cansa.
Wiz school dropouts

Minha cicatriz está doendo. Não, esperem: é minha cabeça mesmo. A Bloomsbury diminuiu a letra no Harry Potter novo ou é porque dessa vez comprei a edição infantil, que naturalmente vem com a fonte menor?
Vou tentar fazer uma breve resenha do Harry Potter e as relíquias da morte sem spoilers.
Até a metade (página 298) do livro nada acontece. É pura enrolação. É como ter entrado num livro não-editado do Tom Wolfe. É em tempo real, e não que isso seja interessante: são acontecimentos de telenovela, como pessoas casando. Cada pensamento dos personagens é telegrafado tintim por tintim para o leitor - e esse não é um livro em que isso interesse, tanto é assim que do meio pro final a Rowling não faz isso... Pouca coisa acontece. Parece que Rowling estava guardando certos acontecimentos para o Natal, e portanto os personagens foram obrigados a se colocar numa imobilidade física e mental que não era a deles durante meses (o ano letivo da Inglaterra começa em julho).
Desta vez Harry, Hermione e Ron não estão acorrentados à escola (pois é, largaram no meio, que foi? cortaram a bolsa-magia? não, você vai ver). Em vez de aproveitar isso para mostrar mais da interação entre trouxas e bruxos, ou qualquer outra coisa, os três adolescentes têm que ficar escondidos em lugares muito, mas muito isolados - compreensível, mas que isso dure em monotom até a página 298, francamente: é tema pro Sartre. O problema é que aqui nem sei dizer com o quê se encheu as páginas. Os personagens não se desenvolvem muito (exceto o Lupin), surgem dúvidas sobre o Dumbledore, a angústia se instala, a trama não avança.
Depois da metade o livro fica bom. O maior sabor está em desconhecer o momento preciso em que as coisas já esperadas vão acontecer - e só depois que acontecem, você concorda plenamente que aquele era o momento de cristalização das mesmas. Tem referências ao nazismo: por exemplo, um símbolo que é usado como signo do mal, mas tem história mais antiga de ser algo inofensivo (igual à suástica). Tem um momento missão-impossível, outro senhor-dos-anéis, outro maquiavélico (de Maquiavel mesmo). O final é bem satisfatório, o epílogo achei meloso.
Se você estiver insatisfeito e quiser um quase-spoiler, aqui eu tinha previsto duas opções de final pra esse livro. Uma delas estava certa.

P.S.: Um causo interessante relacionado à J.K.Rowling, nem um pouco spoilerento, na seção final do post.

18.7.07

A história de um dos episódios de Hi Hi Puffy Amy Yumi é "emprestada" do conto que abre The elephant vanishes, de Haruki Murakami. No Murakami, "um casal recém-casado sofre ataques de fome que os leva a assaltar um McDonald's no meio da noite". No desenho, é a Yumi que tem o ataque de fome e arrasta a Ami para ir atrás do hambúrguer - que acaba roubando de um gordo sujão, mas depois se arrepende. Tá, vamos chamar de "referência"...
Minha amiga me indicou o Shelfari, que é uma espécie de Orkut de livros. Fui experimentar e gostei. É realmente como o Orkut, mas as estrelinhas e testimonials vão para os livros, o que faz toda a diferença. Já até fiz um grupo chamado "Daria's book club", com os livros que a Daria lê durante toda a série animada. Tem o senão de só poder listar livros da Amazon, ou pelo menos não percebi ainda como colocar os nacionais.

16.7.07

Beatriz Bracher lança um livro novo. Chama-se Antonio. Quando li Azul e dura quase caí... dura. (Eu o descobri na banquinha da 7Letras umas primaveras atrás.) É o melhor livro de autor pós 2000 que já li - não sei porque não ganha a atenção que merece. Talvez por Beatriz não ser "novinha" ou "engraçada". Eu humildemente me identifico com ela e quero me filiar a seu clube. Também não sou muito engraçada nem muito novinha - apesar de ter 24 anos, a lolitice nunca me caiu muito bem.
"papai, mamãe, não sou vagabunda. Passei num concurso! Um concurso público de verdade!"

O primeiro dia não foi muito diferente. No segundo dia comecei a flutuar pelas ruas – como assim não vêem que estou andando em câmera lenta, wideshot lateral me acompanhando os passos? (Minha câmera é assim. Como é a sua?)
Uma moça do ibiCred me pára, querendo me empurrar um pacote a juros extorsivos. Pego nos seus ombros, moça baixinha e leve, e bailo cantarolando "Eu não estou precisando! Eu não estou precisando!" e a moça-feita-de-nêga-maluca foge para os braços da colega, pensando provavelmente que precisa largar aquele emprego diabólico, e eu dou uma gargalhada e mais uma dançadinha.
(esse último parágrafo não aconteceu. Quase aconteceu. Óia a chuva. É mentira.)
A carta da Petrobras vai na bolsa comigo. Virou amuleto. Agora é preciso debelar a burocracia.
Acho um cartório surpreendentemente sem filas, pago oito reais e meio para autenticar CPF e identidade.
Entro numa livraria e percebo o livro de Cecília Giannetti bem ali no topo de uma pilha. Abro, dou uma lida. Vou levar. Levo o da Ana Paula também.
Enquanto isso, continuo fazendo deveres de francês com a letra caprichada... uma boa moça.

15.7.07

Isso tem me acontecido muito: a dupla ou tripla ocorrência de palavras - palavras exóticas! - com menos de 24h de diferença.
Ontem fiquei com a palavra Xanadu encalacrada na cabeça depois que passou a música-tema do filme da Olivia Newton-John no iPod em shuffle. Fiz uma pesquisa sobre ela. Pouco depois assisto um episódio dos Simpsons (O peixe de três olhos) em que há uma paródia de Cidadão Kane, cuja mansão chamava-se Xanadu. Retomei a leitura de O complexo de Portnoy hoje. Lá estava mais uma referência a Xanadu.
Antes do final da minha edição antiga de Complexo de Portnoy, topei com a tradução descuidada "sapato de duas cores" - não seria 'sapato bicolor'?, pensei na hora. E traduzindo agora outra coisa para sobreviver, descubro que "spectator pumps" ou "co-respondent shoes" são sapatos bicolores.

13.7.07

O PAC também prevê livros e óculos.
são milhares de clientes satisfeitos





Maria Luiza acaba de atender seu milésimo cliente. Tin-tin.
(Mil é conta de Romário, por isso coloquei a imagem.)
Darel Valença Lins é meu artista em atividade preferido.
Vocês nunca ouviram falar dele? Descobri-o durante a pesquisa nos jornais... de 1985. Quando o olho bateu nas reproduções do trabalho dele, senti que ali estava arte de verdade. Isso não acontece toda hora.
Googlei e achei várias Maria Luizas desenhadas por ele (humilhantemente melhor que eu, é claro):

a dele_________________a minha
a minha Maria Luiza











Caso tenham gostado do trabalho do homem, tem mais aqui e aqui. Caso tenham gostado do meu desenho, vocês não têm gosto, mas aí vão os links: 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9 - 10 - 11

10.7.07

woman dies mauled by butterflies

Se uma borboleta pousa no seu ombro, dizem que é sorte. Mas e se o panapaná inteiro vem em cima de você é o quê? Sorte compulsória?
Não, você não entendeu. Elas não estavam simplesmente pousando. Estavam me marrando com suas asinhas adejantes. PÂNICO. Comecei a catá-las e a jogar longe, aos punhados. Mas surgiam mais não se sabe de onde e eu as esfregava para fora da blusa às carradas já sem pudores ecológicos. Então vinha outro panapaná amarelo-e-branco de outro flanco. Eram todas ou amarelas ou brancas. As ardilosas tinham lido Sun Tzu, não é possível. Ou Chuang Tsé. Talvez seja melhor parar de ler The Chinese have a word for it antes de dormir.
Parece uma paródia bizarra do início de O homem duplo. Pode querer dizer que o aquecimento global vai desembestar de vez, não sei.

9.7.07

Detesto autobiografia, apesar de todo resenhista enxergar "traços autobiográficos" no meu trabalho. Minhas últimas personagens femininas foram uma patricinha, uma lésbica e uma prostituta. Minha personalidade é um Frankenstein. Minha experiência pessoal provém de vidas passadas.
Tenho 24 anos, cacete. Não dá tempo. Pela lâmina de Ockham, é tão difícil assim admitir alguma dose de imaginação?
Mas a lâmina não funciona. Alguém escreveu em 2000 que "a nova geração veio dos blogs com sua escrita autobiográfica". Mesmo que você tenha ido para os blogs e não vindo deles, mesmo que você tenha orgulho de nenhuma linha dos seus livros ter qualquer ligação com o real, não adianta: enxergarão o chifre em sua cabeça de egüinha pocotó.
E vão querer publicar fotos suas em plano americano.

Odeio o pecado, não o pecador.

5.7.07

(Quanto aos comerciais de cinema, exceção feita a alguns trailers como esse. Estou doida para ver no cinema.)
Ando lendo a revista Senhor - é, a Biblioteca fechou, então agora compramos as coisas em sebos - e me apercebo de uma coisa... como a Piauí é chata! Lembro da última capa, estendida nas bancas: novamente um cartum com alguma referência ao Che ou ao Mickey. Lembro do comercial* mandatório no cinema querendo conquistar minha simpatia. (Os piores comerciais vão ao cinema**, vou começar a ensaiar um atraso de noiva para evitar esse ordálio***).
Também me peguei querendo CTRL-clicar nas matérias do índice da Senhor para abri-las em abas.


*com ioiôs, o que me lembrou o Trem da Alegria
**onde não se pode fugir
***de oito minutos!

3.7.07

FLOP

Eu tento, eu tento. Eu juro que tento me convencer a ir para a FLIP. Gente muito boa declarou que vai estar lá, ou na FLAP. Mas além do trauma, eu detesto multidão. Só mesmo o Daft Punk pode me fazer suportar um amálgama humano deste grau (Bjork talvez).
E não consigo tietar autor. Que mania de tietar autor! Não nasci para Penny Lane, definitivamente. Se eu quiser saber as idéias dele, compro um livro dele. Assim como eu não quero assistir a uma palestra do Daft Punk, não existe um escritor que eu queira ver lá na frente, falando.
Estou angustiada. A FLIP vai ser um ponto de confluência de gente querida, e eu queria vê-las, falar com elas, passear com elas e tomar sorvete com elas (tem sorveteria em Paraty? Não serve sacolé, não...). Mas sei que não vou nem chegar perto de me divertir. Me sinto incapacitada. Uma cadeirante social. Cadê a minha cota.
Oldie

O despertador me acordou hoje com uma música que eu não ouvia há muito tempo: Come to my aid, do Simply Red. Talvez pela porta entre consciência e inconsciência estar meio entreaberta, lembrei-me da primeira vez em que ouvi essa música: no rádio ou na TV, talvez num Videoshow de uma tarde de domingo - mas eu não olhava para a TV; simplesmente não tinha esse costume. 1986, eu devia ter uns três anos. O início de Come to my aid, por ser sincopado, me suscitou uma imagem claríssima na hora: uma fila de pessoas louras, altas e magras batendo fotos com flash no ritmo da música, mais turistas que fashionistas. Elas tinham cortes de cabelo da época, reflexos e tal, e óculos de sol. Pernas branquelas de fora, bermuda cáqui, Lacoste amarrado na cintura. Isso me acontecia muito na infância, experiências sinestésicas, e essa foi uma das primeiras com certeza. Voltou agora só porque sintonizo numa rádio de oldies.
Substituição do hype pelo bom

Troque José Saramago pelo mais ágil António Lobo Antunes.
Eu nunca li António Lobo Antunes (não mais que um parágrafo) mas sei que, se você não consegue gostar de Saramago, vai gostar de Antunes. Eu tenho instinto para essas coisas. É só.
Preciso estudar agora algum substituto para o Mia Couto.

PS: Eis o parágrafo que li de António Lobo Antunes:

Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, o despertador pescou-me às oito horas do meu sono, do mesmo modo que as gruas do cais trazem à superfície os automóveis peludos de limos que não sabem nadar. Subi nos lençóis pingando noite das mangas e dos pés, até o guindaste depositar na alcatifa, junto aos sapatos da véspera, o meu cadáver ferrugento de ramelas, amolgado de olheiras e reumático. Como os corpos na morgue, a Ana embrulhava-se na colcha na outra extremidade da cama, e o piaçaba dos cabelos emaranhados despontava da roupa. O pingo triste de cera de um calcanhar defunto tombava do colchão. Enquanto lavava os dentes, o espelho da casa de banho mostrou-me cruelmente os estragos, de capela abandonada, dos anos. - de Auto dos danados, nunca publicado no Brasil

2.7.07

O G-bar

O Gmail é uma mesa de bar hi-tech, como houve o Villarino, o Vermelhinho e não sei mais quantos. Os bares morreram, o conceito não. Você fica sentada e espera seus amigos passarem. Fatalmente passarão, porque ali é um “centro”. Há pressa, muita pressa, pois os tempos mudaram. Mas consigo bater um papo com as pessoas que eu gosto, nem que seja de raspão. Nem que estejam em São Paulo ou ainda mais longe. Tá bom, podem se espalhar à vontade, não vou segurar sua perna - mas continuem logadas. Se o tempo é líquido, o negócio é sentar na borda do riacho.
(Penso que no futuro a história oral também não vai funcionar igual. Era assim: as conversas eram perdidas, as cartas ficavam. Agora teremos amostras das duas.)

28.6.07

Pasquim, 1970

Millôr - (...) Você sabe que esta sua atitude agressiva em relação ao Cinema Novo em bloco (...) só poderá te dar lucro. Esta atitude, ela é consciente ou inconsciente em você?
Rogério Sganzerla – Ela é consciente porque eu não sou uma pessoa burra. Você mesmo falou que eu sou inteligente. Falando mal do cinema novo eu me esculhambo, eu me estrepo, é um negócio, inclusive, com um certo tom suicida, mas também eu ganho uma projeção que me interessa. Eu preciso jogar com isso.
Helena Ignez – Você é levemente oportunista, no caso?
Rogério Sganzerla – Não. Eu sou uma pessoa honesta. Se eu fosse oportunista eu iria tratar bem as pessoas que eu ganharia muito mais, eu venderia meus filmes pra Europa.


Zero Hora, 1974

Marcos Faerman: Rogério, você não era um cara muito bem comportado, antes de sua explosão no Bandido da Luz Vermelha? Você não era um cara bem comportado assim como Caetano Veloso antes da loucura e da genialidade de Alegria, alegria?)
Rogério Sganzerla: Sabe, eu sempre tive uma certa desconfiança daquela música, daquilo que vinha sendo feito desde 62, 61, a busca de uma cultura brasileira, nacional e tal, um negócio meio fascista, com a mesma linguagem de Mussolini, de buscar uma "cultura brasileira". Isso eu acho errado porque se a gente enterrou toda uma cultura ocidental, por que vai salvar a nossa? Eu acho que é um sentimento possessivo de guardar os pequenos elementos daquilo que se produz. Eu acho que a gente devia botar no fogo a cultura brasileira também, e não tentar separá-la, isolá-la do universal, da jogada geral.


Assisti O bandido da luz vermelha e achei chato. Isso não impede que ache o cara genial nas entrevistas. E vai sair um livro só disso. Depois dou mais detalhes.