24.10.07

Outro dia vi uma mulher lendo no ônibus. Como sempre, espichei o pescoço para ver o que ela estava lendo... e como sempre, me decepcionei. As pequenas figurinhas nas bordas denunciavam que se tratava de um livro de auto-ajuda. (O único livro com figurinhas não de auto-ajuda é Alice no País das Maravilhas...)
Aí fiquei pensando no porquê de ninguém escrever ficção para essa mulher. Ninguém nesse país. Também, você pensa, por que escrever para essa mulher? E pensa: por que não?
Talvez eu não seja capaz de escrever para ela, mas para um aluno inteligente de ensino médio. Aliás, já estou escrevendo para esse aluno, uns contos com começo, meio e fim, que todo mundo entende o que se passa. Assim: eu ando metade do caminho, o aluno metade (com o PAC dos livros e óculos), e a gente se encontra no meio. Até topo continuar pagando CPMF para isso, mais um pouco.
O fato é que alguns livros da nova literatura são pura masturbação intelectual. E nem todo leitor gosta de ser tratado como atriz de bukkake. Meu conselho é abri-los de olhos semicerrados...

Mas chega de sacanagem. Agora estou lendo uns contos de Machado de Assis - aqueles que ele escreveu para revistas femininas e semanais - e me encantei. Por que não nos deram isso para ler, em vez de "Cinco minutos" e "A viuvinha" ?
Outra coisa com que fiquei passada: esse meu livro novo terá um conto de escola, que eu pensei em chamar de "Conto de escola", mas já havia um "Conto japonês" abrindo o livro, o "Amostragem complexa". "Papéis avulsos", livro de contos do Machado, tem um conto passado no Japão ("O segredo do bonzo") e outro chamado "Conto de escola". Tudo, tudo já foi feito, mas às vezes é impressionante como é refeito tão igual - sem cola nem nada. Será que ele tem algum conto sobre bibliotecas (retake on Borges, desse eu colei)?
Notei também que Machado colocava mulheres poderosas em seus contos (em tudo!) e, engraçado, não vejo ninguém chamando a literatura dele de chick lit.