30.5.10

teoria da comunicação

Estou na segunda graduação, nenhuma vergonha na cara, já entreguei monografia mas adoro produção editorial e por isso não paro de puxar matérias. É tipo um curso livre para mim.
Aí, por estudar na Eco, ouço essas histórias.

Calouro Leite-com-Pera, anticotas, é respondido ironicamente pela Diretora pró-cotas da Eco via Twitter - no que é referido como branco-danoninho. Calouro Leite-com-Pera é secundado por um monte de gente anticota e/ou gente que se sentiu discriminada enquanto branco-danoninho. Veterana Sniper tuíta que vai juntar umas meninas para dar um pau no Calouro Leite-com-Pera. Calouro Leite-com-Pera interpreta o tuíte literalmente e aparece com a mãe na Eco no dia seguinte, ameaçando Eco, Diretora e Veterana Sniper de processo.
Cai o pano.

Sei que é bom demais pra ser verdade, mas juro: não é fruto da minha imaginação. Mui me ufano de estudar nesse lugar.

Tenho a teoria de que esse choque de civilizações se deve à aposentadoria do professor Saboga, coisa por que tanto torcemos quando jovens e ingênuos.
Nesse singelo post de 2004 temos a definição abreviada do Saboga:
"Pega os calouros, 1o período. Não importa o ano, reprova 80% de uma turma e 50% da outra (aquela com a qual ele simpatiza mais)."
E acrescento: aprovações e reprovações eram efetuadas aleatoriamente, com comentários desmoralizantes também aleatórios em caneta vermelha, nas margens.
Ele exigia papel almaço.
Encadeava cigarros (podia em 2001) e percorria o espaço frontal com passos abertões, ida e volta, nas primeiras aulas - que eram as únicas expositivas.
Depois começavam os textos.
Quem fizesse perguntas sobre eles podia ser chamado de burro antes de mais nada. Ainda assim, ele exigia perguntas.
Nessa fase ele abandonava a sala quase no meio de uma frase, com 15 minutos de aula, após requerer perguntas que os aterrorizados alunos não tinham coragem de fazer.

Outros fun Saboga (non)facts:
* Ele deu aula para Fátima Bernardes, por exemplo. Isso é documentado. Há um tocante depoimento dela num livro que sempre circulava entre os calouros, às vezes apenas o excerto na lista da faculdade.
* Fofoca sem fundamento: certa vez, uma menina teria gritado no meio da aula que ele devia ter o pinto muito pequeno pra tratar os alunos daquele jeito e ganhou dez na prova.
* Fofoca sem fundamento [2]: uma menina por quem ele supostamente se apaixonara (porque ela manjava de filosofia alemã) teria estado na casa dele e relatado diversas estranhezas, entre elas, que ele não possuía televisor. No dia seguinte do jantar com ela (que diz não ter dado), ele teria declarado que daquele momento em diante jamais voltaria a reprovar um aluno.

Bem. Voltando à vaca fria.
O abuso ritual exercido pelo professor em questão era essencial para subir a taxa de niilismo ("resiliência") dos Calouros Leite-com-Pera. Quando, chorosos, eles se aprochegavam da autoridade mais próxima (o então Diretor do Departamento, professor José Henrique) e ele dizia estar de mãos atadas, e depois galgavam de joelhos o Gólgota da hierarquia acadêmica - Diretor de Graduação, Diretor da Eco ou até o Reitor - apenas para encontrar mais evasivas, algo se quebrava dentro deles: o último vestígio da sensação de protetorado infantil. Aqui é a vida real, rapaz. Ela não é justa. Mas nem por isso você pode correr para a saia da mamãe.
Isso sim era educar para a vida.
Aliás, o nome da matéria dele era Realidade Brasileira.

Eu aprendi minha lição. Mas ah, os velhos mestres se vão e os pupilos não se mancam de encontrar os próprios...
A Eco era uma sociedade pós-apocalíptica, pós Hiroshima. Agora misturou tudo. Tem gente com o brilho da esperança no olhar.
Vai dar merda. Uma merda possivelmente interessante.
Eu, por exemplo, sou anticotas (pró-educação básica boa para todos) e anticalouroleitecompera. De que lado eu me posto? Metade pra cada lado, só se for.